02 – O mercado

O mercado imobiliário em Lisboa é um mercado rico e muito especial. Mais precisamente: é rico especialmente para pessoas que também são ricas. E é especial porque não segue as tendências mundiais, não se preocupa com as guerras ou taxas de juro, e os preços estão a subir e a subir e a subir até o céu e talvez mais. 

Com o dinheiro pode comprar a casa dos sonhos, perto dos transportes públicos e com uma vista do rio incrível. A maioridade destas casas está vendida às pessoas chinesas, americanas ou reformadas dos outros países ricos do mundo que se chamam a Franca, ou às pessoas dos impérios dos hotéis. Pessoas portuguesas com salários nacionais conseguem comprar só casas em Loures ou casas de bonecas.

Os gatos checos com o salário europeu tinham um pouco mais esperança, todas sextas-feiras compravam um bilhete dos Euromilhões, e começaram visitar casas de todos os preços para ter a ideia sobre o mercado.

As casas portuguesas são frequentemente antigas e, quando são bem tratadas, têm estilo e caráter. Os chaos de madeira maciça corrida fornecem uma base decente para os passos importantes da vida e recebem bem as patas de gato. Os tetos altos com molduras e rosetas permitam grandes sonhos e estruturas elevadas para escaladas. As janelas grandes e varandas deixam o sol entrar a casa e a pele dos gatos, e servem como pontos da observação. Casas desta categoria compraríamos só com um sucesso nos jogos.  

Há também casas renovadas. Sola acha que os proprietários delas pensaram mais sobre investimento de que sobre revestimento ou habitação. Todas têm cozinhas brancas de Ikea com lava-loiças pequeninas, azulejos tipo metro nas casas de banho, tetos falsos baixos com holofotes embutidos, e chaos flutuantes vinilicos que fingem que encontraram uma árvore uma vez, e com um elemento original (tipicamente com uma gaiola pombalina exposta).  O gosto estético dos gatos não tinha sofrido, mas nem cumprido. Durante quatro anos, tínhamos visitado muitos apartamentos e muitas casas e, com cada nova visita, precisávamos melhorar o que queremos. Cedo, soubemos que tivermos de renovar.

Quando as casas não foram bem tratadas, habitualmente são mais baratas e a historia delas pode se sentir como uma farpa na pele. Com cada nova visita e com cada aumento das taxas de juro, ficou mais claro que é uma farpa que vamos comprar. 

One response to “02 – O mercado”

  1. E mesmo as casas em Loures, com a promessa da chegada do metro num futuro incógnito, já não são assim tão acessíveis aos salários nacionais…

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