Foi sempre nuns nossos pensamentos — comprar uma casa com um jardim. Por o Kokku gosta de ficar a fora e a Sola gosta de ir para fora e volta cento e cinquenta vezes por dia mas eu não gosto de me levantar cento e cinquenta vezes por dia para abrir a porta para ela. Do que eu gosto é: jardinar, beber cafe num ar fresco, e construir coisas que nunca construo na casa arrendada mas sempre sonho que construiria se tiver a minha casa. Acho que é a mentalidade dos mimados por vida na casa própria onde todo que corre mal é o meu problema e não dos outros, e onde não é possível perder o deposito. (Já aprendemos, no entanto, que a realidade é mais complicada mas sobre isto ainda mais tarde.)
Eu sempre dizia que adoro fazer coisas com as minhas mãos para equilibrar o facto do meu trabalho onde tudo acontece na minha cabeça e as vezes uso um computador. A Sola apontou uma vez que — se isto fosse a verdade — a nossa casa arrendada estaria mais limpa, a areia dela não estaria sempre cheia, a bicicleta que quero reparar desde 2020 funcionaria e a nossa varanda não parecia um cemitério das plantas. Kokku não disse nada, porque tinha adormecido.
Eu gosto também muito de ler, cozinhar, falar com o oceano, apanhar o sol no inverno e passar o tempo num sofá — todas as coisas que podem ser feitas vivendo na casa arrendada sem alguma dificuldade. Por algum motivo, estes meus amores não tiveram nenhuma voz durante os quatro anos que demorou o pensamento sobre a compra de casa.
Em cada caso, pensámos, comprar uma casa é sempre uma boa ideia porque o dinheiro que temos poupado está a perder valor cada dia, enquanto os preços dos imobiliários em Lisboa estão a subir. Além disso, as rendas em Lisboa ficam mais ou menos mais caros de que o montante que paguemos por o empréstimo. Com uma pitada de racionalidade, foi decidido.
Os gatos insistiram que temos de especificar o que a nossa casa tem de ter. Então fizemos uma lista:
- um espaço exterior substancial, para não ficar aborrecido (Kokku e Sola);
- uns pontos de altura para ver tudo de cima (Sola);
- uma cozinha grande com um sofá (eu);
- o espaço interior suficiente para correr as distancias compridas (Sola);
- duas frentes para ventilar bem a casa durante verão e quando a minha culinária acaba com uma cremação do meu jantar (todos);
- um quarto extra para os visitantes (eu) e para ter a opção de ir ao outro quatro e chamar me (gritar) daí às três de manhã (Sola);
- a casa de banho com uma banheira para conseguir tomar banho (eu) e para caçar gotas de água (Kokku);
- bom aceso ao meu trabalho e boa ligação por transportes públicos (eu);
- bastante lugares cómodos e abundância de comida (Kokku, mas como isso é possível na cada casa não respeitámos este critério).
Ficando preparados desta forma, o grande projeto A nossa casa própria pôde começar.
Leave a Reply